ESPECIAL MOBILIDADE: “A solução para o trânsito não é construir mais túneis, é tirar o foco do carro”, afirma Sérgio Avelleda

Por Redação Jornal Extremo Leste SP

Em uma análise contundente sobre o atual cenário de saturação das vias paulistanas, Sérgio Avelleda — coordenador do Núcleo de Mobilidade Urbana do Insper e ex-presidente do Metrô — em uma entrevista concedida à Rádio Eldorado, no Jornal Eldorado, ao âncora Haisem Abaki, às 8h07 dessa quarta-feira (18/03), alertou que as políticas públicas atuais estão “retroalimentando” o caos no trânsito. Para o especialista, enquanto as prefeituras priorizarem o recapeamento de ruas e a construção de obras faraônicas para automóveis, a cidade continuará refém dos congestionamentos.

O Círculo Vicioso das Grandes Obras

Avelleda rebate a ideia de que pontes, túneis e viadutos resolvem o problema a longo prazo. Ele citou exemplos históricos como o Túnel Ayrton Senna e a pista central da Marginal Tietê, que foram vendidos como soluções definitivas, mas hoje operam saturados.

“Quando se foca a solução no automóvel, incentiva-se as pessoas a comprarem mais carros. O resultado é que qualquer nova via, como o túnel projetado na Vila Mariana, estará engarrafado em apenas um ano”, afirmou.

Dados da última pesquisa Origem-Destino do Metrô corroboram essa visão: os paulistanos estão trocando o transporte coletivo pelo individual, o que Avelleda classifica como uma “tragédia para as cidades”.

O Paradoxo da Velocidade: Carro vs. Caminhada

Um dos momentos mais curiosos da fala do especialista foi a comparação de um trajeto entre a Pompeia e a Lapa. De carro, o percurso levou uma hora e meia. A pé, mantendo um ritmo de 6 km/h, o tempo cai para uma hora. Ou seja, em São Paulo, muitas vezes o pedestre é mais rápido que o motorista preso no trânsito.

Ônibus e Metrô: O Caminho da Eficiência

Avelleda defende que a prioridade deve ser total para o transporte público e a mobilidade ativa (bicicletas e caminhada). Embora reconheça a expansão da rede metroviária — que saltou de 40 km em 2004 para mais de 100 km atualmente, com obras nas Linhas 6, 17, 15, 4 e 5 e projetos para as Linhas 19 e 20 — ele destaca que o ônibus é a ferramenta mais ágil para transformações imediatas.

  • Tarifa Única: Defesa da unificação total de tarifas e meios de pagamento facilitados.
  • Velocidade: O ônibus precisa ser, obrigatoriamente, mais rápido que o carro através de faixas exclusivas.
  • Fim do Preconceito: “Precisamos tirar o preconceito de andar de ônibus. Eu moro na Paulista e vou para Congonhas de ônibus; é muito mais rápido pela faixa exclusiva”, relatou.

Ciclovias e “Desestímulo” ao Carro

O especialista criticou a “vergonha” que a gestão pública parece ter das ciclovias, afirmando que a demanda só cresce quando a infraestrutura é oferecida. Ele também sugeriu medidas polêmicas, mas necessárias, para desestimular o uso do carro:

  1. Redução de vagas de estacionamento nas ruas.
  2. Ampliação de calçadas e corredores.
  3. Discussão sobre pedágio urbano e ampliação do rodízio (relembrando o rodízio ambiental mais abrangente da era Mário Covas).

A Conta do IPVA que o SUS Paga

Avelleda fechou sua análise com uma crítica dura ao incentivo à compra de motocicletas via isenção de IPVA. Segundo ele, o subsídio na compra gera um custo social imenso: 60% das vagas de UTI no Brasil e 80% dos atendimentos de trauma nos hospitais municipais são ocupados por vítimas de acidentes de trânsito, principalmente motociclistas. “Subsidia-se a moto e paga-se a conta no SUS”, concluiu, pedindo ações mais firmes e corajosas da Prefeitura e do Governo do Estado.

Sergio Avelleda

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